julho 23, 2026

Alexandre Simões

SIMOES01

@simoesoficial

Alexandre Simões atua há mais de 20 anos no marketing digital, ajudando negócios a conquistarem clareza, posicionamento estratégico e resultados concretos no ambiente online. Sua trajetória começou nos anos 90, quando a internet ainda dava seus primeiros passos no Brasil.

Hoje, dedica-se a capacitar pessoas e empresas a usarem a internet com inteligência, por meio de consultorias personalizadas, estratégias sob medida e automação, transformando presença digital em crescimento real e sustentável.

A internet está deixando de ser um destino para se tornar uma infraestrutura

Enquanto discutíamos SEO, o Google mudou o jogo: agora a disputa é para ser citado, não para ser clicado

No início dos anos 90, acessar a internet era um ato de escolha. Digitava-se um endereço, clicava-se em um favorito, ou recorria-se a um mecanismo de busca para chegar a um lugar específico. Toda a experiência era construída sobre a ideia de destino: cada empresa, jornal ou serviço ocupava um espaço próprio na web e dependia da visita do usuário para existir. Esse modelo organizou a internet por quase três décadas.

Ele está mudando. Talvez pela primeira vez desde a ascensão do Google, a transformação mais relevante não esteja acontecendo nos websites, nos navegadores ou nos mecanismos de busca, mas na interface entre as pessoas e a informação.

A mudança parece sutil. Na prática, altera tudo.

Aprendemos, por anos, que a internet era feita de páginas conectadas por links. Hoje, um número crescente de pessoas faz uma pergunta e recebe uma resposta pronta, sem visitar nenhum site. O destino perdeu importância. O que passa a importar é quem interpreta a informação.

Essa sensação de que “o clique sumiu” já deixou de ser anedota de quem trabalha com conteúdo e virou número fechado. Um estudo randomizado publicado em abril de 2026 por pesquisadores da Indian School of Business e da Carnegie Mellon University, o primeiro a isolar uma relação causal e não apenas uma correlação, mediu queda de 38% nos cliques para fora do Google em buscas que exibem resumos de IA. No mesmo levantamento, a proporção de buscas que terminam sem nenhum clique subiu de 54% para 72%. No Brasil, o Panorama PRO 2026, da Leadster, mostra a fatia da busca orgânica no tráfego total caindo de 41,47% em 2024 para 27,91% neste ano. São fontes de natureza diferente, um estudo acadêmico controlado e um relatório de mercado, mas que apontam na mesma direção. O link continua existindo. Só que cada vez menos gente passa por ele.

O caso mais citado do mercado é o da Chegg, plataforma americana de conteúdo educacional. A empresa reconheceu publicamente o impacto do ChatGPT sobre seu tráfego, viu a ação despencar 50% em um único dia e acumulou perda de cerca de 90% do valor de mercado, com corte de 45% do quadro de funcionários. Vale a ressalva: a Chegg também enfrentou atualizações de algoritmo e pressão competitiva no mesmo período, então isolar o quanto veio da IA é difícil. Mas o padrão se repete em escala menor em publishers de nicho, e-commerces e empresas B2B, o suficiente para deixar de ser exceção.

Uma história de interfaces

A internet sempre foi mediada. Primeiro vieram os diretórios, que organizavam o conhecimento em categorias curadas. Depois os buscadores, que substituíram a curadoria humana por relevância algorítmica. Depois as redes sociais, que trocaram a busca ativa pela distribuição via feed. Agora, os assistentes inteligentes. A diferença é que, pela primeira vez, a nova interface não manda o usuário para lugar nenhum: o caso da Chegg mostra o que acontece com uma empresa quando isso a atinge em cheio, e a queda medida pela Leadster mostra que o mesmo padrão já é média de mercado, não exceção isolada.

O que muda, a cada ciclo, não é a informação em si, mas quem controla a ponte até ela. Diretórios controlavam por categoria, buscadores por relevância, redes sociais por engajamento. Os assistentes de IA controlam por síntese: decidem o que vale a pena responder, e o texto original vira matéria-prima invisível dentro dessa resposta. Esse é o verdadeiro impacto da inteligência artificial. Ela não está apenas respondendo perguntas, está substituindo a principal interface de acesso ao conhecimento construída nos últimos vinte anos.

Quando isso acontece, os websites deixam de ser pontos de chegada e passam a operar como infraestrutura. Continuam essenciais, mas tornam-se invisíveis para quem consome a informação. Ninguém verifica o cabo submarino antes de assistir a um vídeo, ninguém pensa no DNS antes de abrir um site. É esse o destino que a IA está reservando para as próprias páginas: presentes em toda consulta, ausentes de toda atenção.

A disputa está mudando de lugar

Essa transição carrega uma consequência inevitável. Durante décadas, empresas disputaram posições nos resultados de busca. Agora começam a disputar espaço dentro das respostas produzidas por inteligência artificial. É uma mudança estratégica, não cosmética: não basta mais ser encontrado, será preciso ser utilizado como fonte.

Essa distinção reorganiza SEO, publicidade, jornalismo, produção de conteúdo e a própria forma como se constrói autoridade na internet. O tráfego deixa de ser o único indicador de relevância; a citação, dentro de uma resposta que o usuário nunca vai clicar para verificar, passa a valer tanto quanto, ou até mais.

Esse novo critério favorece jogadores que ninguém esperava. A Customer.io, empresa de automação de marketing, hoje é citada pelo ChatGPT com a mesma frequência que a HubSpot, gigante do setor, mesmo tendo cerca de 125 vezes menos tráfego orgânico. O tamanho da audiência que um site já tinha deixou de ser garantia de espaço na resposta da IA. O que pesa agora é a profundidade e a clareza do conteúdo em cada tema específico, não o volume histórico de visitas.

O que ainda não sabemos

É cedo para afirmar como esse novo ecossistema será organizado. Mas um traço já parece claro: a próxima geração talvez não aprenda a navegar na internet como aprendemos. Ela simplesmente vai conversar com ela.

Quando isso se consolidar, a internet deixará de ser um lugar que visitamos para se tornar, definitivamente, uma infraestrutura que utilizamos sem perceber, tão embutida no cotidiano quanto a eletricidade ou a água encanada.

Fica uma pergunta para quem produz conteúdo, marca ou audiência: se a IA já responde por você antes que o usuário clique, seu conteúdo hoje está sendo escrito para ser lido, ou para ser citado? A diferença entre as duas respostas vai definir quem sobrevive à próxima década da internet.

Alexandre Simões

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