Fenômeno das redes sociais impulsiona vendas, lota eventos literários e cria novas oportunidades para marcas que desejam dialogar com comunidades altamente engajadas
A 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada no Distrito Anhembi até 13 de setembro, reforçou uma tendência que já vinha ganhando força nos últimos anos: a influência dos criadores de conteúdo sobre o mercado editorial. Com expectativa de receber aproximadamente 700 mil visitantes, o evento registrou ingressos esgotados logo no primeiro fim de semana e enfrentou momentos de grande movimentação, evidenciando o interesse crescente do público pela literatura.
Grande parte desse sucesso está ligada ao BookTok, comunidade formada por leitores e criadores de conteúdo no TikTok que transformou livros em fenômenos virais e aproximou uma nova geração do universo literário.
Redes sociais ajudam a lotar os corredores da Bienal
A programação da Bienal foi construída de olho nos gêneros que mais movimentam as redes sociais, especialmente romance, fantasia e suspense.
Autores como Alice Oseman, criadora de Heartstopper, além de Ana Huang, Elena Armas e Carina Rissi, atraíram filas de leitores e contribuíram para transformar os estandes em alguns dos espaços mais disputados do evento. Em muitos casos, os livros mais procurados eram justamente aqueles que viralizaram nas recomendações feitas por criadores de conteúdo.
BookTok impulsiona o consumo de livros
O crescimento do BookTok acompanha uma recuperação importante do mercado editorial brasileiro.
Dados da Nielsen mostram que, entre 2024 e 2025, a participação do TikTok como fator de influência na compra de livros impressos passou de 3,5% para 5,9%. No mesmo período, a parcela de adultos que adquiriu pelo menos um livro aumentou de 16% para 18%, o equivalente a cerca de 3 milhões de novos consumidores.
Entre leitores que costumam acompanhar lançamentos, 22% afirmam buscar novidades por meio de criadores de conteúdo. Além disso, 56% dos consumidores de livros dizem realizar compras influenciadas pelas redes sociais.
Criadores se tornaram mediadores culturais
Muito além da divulgação de lançamentos, os creators passaram a exercer um papel importante na formação de novos leitores.
Ao compartilhar resenhas, opiniões e experiências de leitura, eles ajudam a despertar o interesse por obras de diferentes estilos e aproximam livros de públicos que dificilmente seriam alcançados pelos canais tradicionais de divulgação.
Esse processo ganhou força durante a pandemia, quando comunidades digitais passaram a utilizar plataformas como o TikTok para discutir literatura, trocar recomendações e criar novas formas de interação em torno da leitura.
Mercado editorial vive recuperação
Após anos de retração, o setor editorial começou a apresentar sinais positivos.
Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e a Nielsen BookData, o faturamento das editoras com vendas ao mercado cresceu 3,3% em 2025, interrompendo um longo período de queda. Ainda assim, o desafio permanece: entre 2006 e 2024, o faturamento real do setor acumulou redução de 44%, mostrando que ampliar o número de leitores continua sendo uma das principais prioridades do mercado.
Nesse contexto, as redes sociais passaram a desempenhar um papel estratégico para ampliar o alcance dos livros e criar novos best-sellers.
Marcas começam a olhar para a literatura
O crescimento do BookTok também despertou a atenção de empresas de diferentes segmentos.
Além das editoras, marcas passaram a investir em clubes de leitura, coleções especiais, eventos e ações com influenciadores literários. No entanto, especialistas apontam que ainda existe espaço para explorar esse universo de forma mais ampla.
Criadores voltados à literatura podem estabelecer conexões com temas como moda, turismo, educação, tecnologia, finanças e comportamento, tornando-se parceiros relevantes para campanhas que desejam dialogar com comunidades altamente engajadas.
A influência vai além da compra imediata
Pesquisas sobre Creator Economy mostram que o impacto dos influenciadores nem sempre acontece no momento da conversão.
Muitas decisões de compra começam quando um produto entra no repertório do consumidor por meio de um creator. Dias ou semanas depois, essa pessoa pesquisa, compara opções e realiza a compra em outro canal.
No mercado editorial, esse comportamento é ainda mais evidente. Os criadores não apenas recomendam livros, mas ajudam a construir significado, estimular conversas e fortalecer comunidades em torno da leitura.
BookTok mostra que cultura também movimenta negócios
O sucesso da Bienal do Livro reforça que a literatura vive um momento de renovação impulsionado pelas redes sociais.
Ao transformar leitores em comunidades e creators em mediadores culturais, o BookTok ampliou a visibilidade dos livros entre o público jovem e abriu novas possibilidades para editoras, autores e marcas. Mais do que uma tendência passageira, o fenômeno mostra como conteúdo, influência e cultura podem caminhar juntos na construção de novos hábitos de consumo.
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